1984: um debate atual
"O
Grande Irmão está de olho em você", frase marcante do romance 1984 de George Orwell, publicado em
1949, percorre toda a trama da obra definida como gênero literário distópico.
Como
primeiro livro do nosso clube de leitura, reunimos neste artigo alguns estudos
da área sobre o impacto que a obra teve no literatura mundial.
Para
o linguista Jean Pierre Chauvin (2020), "os romances distópicos, escritos
entre as décadas de 1920 e 1950, foram inventados por escritores e escritoras
conscientes dos limites e tensões do tempo em que viviam. [...] Não estamos a
lidar com profetas, mas com artífices inventivos que captavam sinais vigentes
em seu tempo e espaço", (p.84).
Chauvin
(2020) no enasio 1984 REVISITADO apresenta
uma análise do romance estabelecendo diálogo com outras obras igualmente definidas
no gênero da literatura distópica. Outro ponto abordado por Chauvin
(2020) refere-se ao aspecto das distopias partirem de pontos de vistas
diferentes.
Desta
forma, deve-se observar, segundo o pesquisador, que "nem todas as
ressalvas feitas aos sistemas totalitários, entre as décadas de 1930 ou 1940,
seriam aplicáveis do mesmo modo ao mundo de 1990 para cá. Os totalitarismos
continuam, mas sob novas roupagens, discursos e tecnologias" (Chauvin,
2020, p.84).
Assim, Chauvin
(2020), ao apresentar em seu ensaio outras vozes e interpretações
sobre o romance, possibilita ao/a leitor/a de Orwell compreender os impactos da
obra no período de sua publicação.
Outra
análise da obra realizada por Renata Kelli Modesto Fernandes e Flaviane Faria
Carvalho em Linguagem e poder na ficção:
uma análise crítica do discurso da obra 1984, de George Orwell, artigo
publicado em 2021, na Revista Trem das Letras, 1984 é interpretado a partir da
sua relação com a obediência que “é introduzida a partir de algo que eles
[personagens] não veem e que já é consensualmente aceito - tal como se dá
tradicionalmente nas relações familiares, assentadas no respeito à hierarquia
existente” (Fernandes; Carvalho, 2021, p. 13).
As
autoras ao escolherem como metodologia a ACD, análise crítica do discurso,
identificaram elementos desta distopia que se revelam no “interesse da
dominação e controle do sistema político daquela sociedade ficcional” (Fernandes;
Carvalho, 2021, p. 22).
Para
as autoras, a obra apresenta uma linguagem que “imprime uma importante
característica de George Orwell: a de escritor engajado. O modo como opera a
linguagem leva-nos a olhar para fora da obra, para o futuro e, ao mesmo tempo,
a refletir o presente” (Fernandes; Carvalho, 2021, p.22).
Podemos,
com isso, avançar no debate alcançando outras perspectivas como as que
apresentam uma abordagem decolonial. Em 1984:
COLONIALISMO E DISTOPIA de Paula Albuquerque, artigo publicado em 2023, a
autora aproxima a obra de Orwell com os estudos decoloniais trazendo à tona as
contribuições de intelectuais negros e negras como Sueli Carneiro, bell hooks e
Achille Mbembe, e intelectuais indígenas como Jaider Esbell para, a partir de
analogias, localizar os/as leitores/as nas relações das opressões que se
constituem pela linguagem.
Como
se percebe, George Orwell com a sua obra 1984
suscitou muitos debates e interpretações, impactando a literatura mundial de
uma forma única, tendo na linguagem sua principal estratégia de engajamento.
Nosso
clube terá um início distópico! Vem ler com a gente!
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ALBUQUERQUE, Paula
Beatriz Alves. 1984: Colonialismo e distopia. Revista V!RUS 26. v.2, 2023.
CHAUVIN, Jean Pierre. 1984
REVISITADO. Revista de estudos de
cultura. São Cristóvão, SE. v. 2, n. 17, Jul. Dez. 2021, p. 81-92.
FERNANDES, Renata Kelli
Modesto; CARVALHO, Flaviane Faria. Linguagem e poder na ficção: uma análise
crítica do discurso da obra 1984, de George Orwell. Revista Trem de Letras. Alfenas, MG. V. 8, n.1, 2021.
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